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Cavalo de Tróia

Sandro, 15 anos, supera a dificuldade de digitar enquanto navega na Internet gratuita do Telecentro
Foto: Beatriz Levischi

O bom uso das novas tecnologias de comunicação e informação representa a possibilidade de uma revolução do ensino e da escola. Carlos Seabra, coordenador do projeto WebQuest da Escola do Futuro da USP, acredita que o computador possa ser a linha de frente da mudança no ensino formal, pois "permite trabalhar a escola com outro enfoque. Ele pode servir como uma espécie de cavalo de tróia, que penetra e rompe as muralhas dessa escola atual".

Os trabalhos desenvolvidos pelo Laboratório de Estudos Cognitivos da UFRS, entre eles o de Ensino a Distância em Ciência e Tecnologia, podem ser conhecidos em www.psico.ufrgs.br/lec

Estudiosa do uso de novas tecnologias na escola, a professora Léa da Cruz Fagundes, coordenadora do Laboratório de Estudos Cognitivos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), define o computador como um " instrumento com recursos que podem libertar o pensamento". Mas, para tanto, ressalva que é preciso que a criança não fique apenas aprendendo a reproduzir modelos.


Escolas na Internet

Outro entusiasta das novas tecnologias é Nelson Pretto, diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). "A presença delas na escola se constitui numa oportunidade sem igual, uma possibilidade que é estruturante de uma nova forma de pensar. É uma outra lógica de raciocínio, simultânea, em diferentes frentes ao mesmo tempo", diz. Mas faz um alerta: "Não interessa colocar a Internet nas escolas, e sim as escolas na Internet. É necessário fazer com que cada aluno ou professor se coloque de forma plena no mundo contemporâneo, como produtores de conhecimento e de cultura"
.

"Não interessa colocar a Internet nas escolas, e sim as escolas na Internet"

Luciano Simões, coordenador do projeto "Escola Interativa", da Organização não-governamental Cipó (Salvador - BA), lembra que a escola tem, hoje, um papel diferencial na formação das pessoas, que é o de orientar o aluno no processamento, na reelaboração da informação. "Uma coisa é ter acesso à informação, outra é processar essa informação e construir sua própria percepção do mundo, seus valores, e também ser produtor de mensagem e não apenas um reprodutor", explica.

Enquanto as novas tecnologias ampliam como nunca as possibilidades de aprendizagem, um discurso restritivo, o de "formar para o mercado", ironicamente ganha força no Brasil. Trata-se de subordinar a educação à adequação de recursos humanos para o trabalho. O professor Pretto chama a atenção para o perigo: "Acreditar no 'formar para o mercado' é criar um cidadão de segunda categoria. Quem defende isso é aquele que quer manter tudo como está: um país onde 10% mandam e 90% obedecem". Ele explica que a escola não pode ignorar as transformações do mundo do trabalho, porém, numa perspectiva cidadã, ou seja no direito de aprender sobre as inovações em termos de linguagens e saberes. "A escola precisa se constituir num espaço de fomento à rebeldia contra as injustiças sociais e não à acomodação", conclui.



Tecnologia e democracia

Viana alerta para os riscos da exclusão digital da maioria da população brasileira. O pesquisador lembra que, quando se coloca a Internet à disposição do pobre, hoje refém da TV aberta (já que não dispõe de dinheiro para jornais, revistas ou TV a cabo), amplia-se o direito dessa pessoa a ter novos canais de informação e, com isso, poder comparar diferentes fontes. O acesso à Internet aumenta a capacidade de o indivíduo se comunicar - como por exemplo, no momento em que começa a mandar e-mails. "Isso garante um direito primordial, que é o de inserção desse cidadão num mundo digital", completa.

Para o pesquisador, se a população pobre tiver na escola uma formação crítica sobre as novas mídias, será capaz de saber usar essa informação para fazer presença, dar a sua voz no processo social como um todo. E o jogo começa a mudar.


Na prática

>> Português a partir das novas mídias
>> Novo método orienta pesquisa na Internet
>> Computadores chegam à periferia paulistana
>> Programa federal atinge 30% da rede
>> Onde encontrar acesso gratuito




* Guilherme Azevedo é repórter, colaborador do EducaRede


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