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Computadores chegam à periferia


Alunos do Telecentro Cidade Tiradentes em aula de informática
Foto: Beatriz Levischi

- A senhora sabe onde fica o Telecentro da prefeitura?
- O quê?
- O Telecentro.
- Não conheço.
- A senhora sabe onde ficam os computadores?
- Ah, sim, ficam logo ali.

O diálogo ocorreu em Cidade Tiradentes, bairro pobre e com altos índices de violência, no extremo leste da cidade de São Paulo, há mais de uma hora (de carro!) do centro. Numa segunda-feira de verão, fotógrafa e eu procurávamos a sede do primeiro centro comunitário de informática, instalado pela prefeitura em junho de 2001.

O Telecentro é um projeto para permitir o acesso gratuito da população pobre à informática. Os locais, equipados com 20 computadores conectados à Internet, possibilitam que os usuários naveguem na rede e aprendam rudimentos básicos de ferramentas como Word e Excell, por meio de cursos modulares. Funcionam hoje, em São Paulo, dez centros municipais e a construção de mais 13 está prevista para os próximos meses.

Retomando a nossa jornada, o Telecentro pioneiro fica numa rua que circunda um terreno central, de terra batida, vermelha, formando uma espécie de praça. Ali no centro, há um campinho de futebol, com traves de madeira, onde a criançada disputa uma partida.

Sheila da Cunha, uma das três monitoras do Telecentro, conta como se entusiasmou com o projeto
Foto: Beatriz Levischi

Quem nos recebe é Sheila da Cunha, uma das três monitoras do lugar. Mulher de meia idade, elegantemente vestida e de fala mansa, Sheila conta que trabalhava no gabinete da prefeita e acabou transferida para a distante Cidade Tiradentes, com a implantação do Governo Eletrônico. Não gostou da mudança no princípio. Estranhou o novo lugar, o fim do almoço com as antigas amigas. Mas hoje diz que não voltaria. Entusiasmou-se com o projeto social que ajuda a desenvolver. É ela quem cuida de parte da organização do Telecentro, agenda horários e cursos para os futuros alunos. E já são quatro mil inscritos que aguardam a vez para dar seus primeiros passos no mundo virtual. Dezoito turmas de dez alunos recebem orientação por semana.

Trajetória semelhante teve o instrutor de informática Nerildo Barbosa. Trabalhava na Administração Regional de Guaianazes, também na zona leste, numa função burocrática, e foi alçado à categoria de professor. "Eu vim contrariado, mas hoje estou adorando", afirma. O que fez mudar sua visão? Ele abre um sorriso e responde: "Poder ensinar, saber que meu conhecimento pode ser útil. Isso me deixa valorizado. É um barato". O contato com essa nova realidade o surpreendeu, pois acreditava que todos os jovens com mais de 16 anos tivessem alguma noção de informática, mas, ao contrário, "ninguém aqui sabia nada", lembra.

Chama a atenção de quem chega o estado impecável dos equipamentos e das instalações. Desde o início, não houve nenhum problema de vandalismo. "O pessoal respeita mesmo, porque sabe o quanto os computadores são importantes para a sua participação no mundo digital", explica Nerildo.

"Hoje a gente não faz nada sem computador"

Formou-se de fato uma rede de proteção ao Telecentro. São os próprios moradores da região que avisam os guardas civis metropolitanos (quatro, no total) responsáveis pela segurança do local 24 horas por dia, sobre a existência de algum perigo para os computadores.

Os meninos Carlos, de 14 anos, estudante da 8ª série, e Sandro, de 15 anos, da 7ª série, esperam a vez para tomar assento numa sala de bate-papo virtual, seu passatempo favorito na Internet. "O mais legal aqui é que a Internet é livre", conta Carlos. "Só não pode entrar em site pornográfico", avisa o instrutor José Adalberto, um rapaz de poucas palavras que auxilia quem navega na Internet. Ele conseguiu o emprego por meio da Frente de Trabalho e recebe um salário mínimo (R$ 180) por mês.

Carlos e o primo Sandro apostam na computação para uma vida melhor. "Hoje, a gente não faz nada sem computador", reconhece Carlos, que quer ser professor de informática. Em outra bancada, dona Sandra Sales, de 42 anos, passa um apuro danado com o mouse. É a primeira vez que ela se senta em frente a um computador. "Não tenho nem noção", aflige-se. Dona Sandra e a filha Priscila, de 12 anos, começaram juntas o curso de "Introdução à Informática".

O instrutor Nerildo passa, em voz alta, as

Mais informações sobre os Telecentros podem ser obtidas no site da
Prefeitura de São Paulo www.telecentros.sp.gov.br

primeiras lições para a nova turma enquanto deixamos a sala em silêncio, para não atrapalhar mais.

Pela janela do automóvel, vemos o Telecentro sumir. Cidade Tiradentes começa a ficar para trás, cada vez mais distante. Mas já não tão longe. Cidade Tiradentes está na rede - e
pode ganhar o mundo.


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