Publicado pela primeira vez no último ano do século XIX, Dom Casmurro é uma ilustração sob medida para o famoso verso de Fernando Pessoa, em “Mensagem”: “o mito é o nada que é tudo”. Entre outros sentidos possíveis, esses versos enigmáticos referem-se ao fato de que o mito inicia-se com uma ficção — um nada — que, no entanto, acaba por tornar real aquilo de que fala. Como os mitos procuram assimilar aquilo que, num dado momento, não faz sentido ou nos parece inexplicável — a origem do mundo, o nascimento do primeiro homem, o que existe depois da vida — já contam com a nossa simpatia, o nosso desejo de entender. E como são hábeis em inventar possibilidades, hipóteses que parecem muito plausíveis para as comunidades que os criam, fincam raízes em nosso imaginário.
É exatamente esse o movimento do livro de Machado de Assis. O enredo do romance é um nada: a história de um adultério, como milhares de outros. Mas, para quem ama, a traição é dolorosamente inexplicável; e além disso, nenhum adultério é igual ao outro. É isso que Bentinho parece nos dizer com insistência, nas entrelinhas de sua narrativa; e é aí, muito provavelmente, que está toda a sua astúcia de contador de histórias e, portanto, de criador de realidades possíveis.
Sim, é o próprio Bentinho que nos conta a história de que é protagonista. E este pequeno detalhe faz toda a diferença: ao nos contar a sua história, acaba por transformar a banalidade desse enredo num drama genial e inesquecível. Podemos aderir ou não às explicações e aos sentidos que Bentinho atribui às diferentes passagens de sua história; mas somos arrastados por esse desejo de entender, de criar uma realidade plausível onde ela parece se desfazer em fumaça.
A narrativa de Bentinho distribui-se de forma desigual por três momentos distintos. A maior parte do relato corresponde à infância e à adolescência; e as dificuldades e os obstáculos a seu amor de infância são os ingredientes do drama. Segue-se uma narrativa breve sobre as circunstâncias do casamento e sobre o próprio casamento. E, pouco depois, o desfecho trágico, antecedido de dúvidas e suspeitas, e seguido da melancolia e da casmurrice com que a história nos é contada.
No primeiro momento, o cenário é o de uma família patriarcal do Segundo Império. Filho de um deputado falecido ainda jovem, Bentinho cresce sob os cuidados da mãe viúva, que pretende fazê-lo padre, por conta de uma antiga promessa. Sem esquecer esse compromisso, Dona Glória, muito devota, adia o cumprimento da promessa, dividida pelo desejo inconfesso de não separar-se tão radicalmente do filho único. Por outro lado, o Bentinho adolescente só tem olhos para Capitu, a filha dos Pádua, vizinhos de condição inferior com quem a família e o menino convivem intimamente. Mas apesar de nem de longe pretender a carreira sacerdotal, Bentinho não pode opor-se aos projetos maternos, seja porque o assunto é um compromisso religioso que, segundo a crônica familiar, lhe salvara a própria vida, seja porque é a mãe, e não ele, a chefe da família e de seu destino.
Todo esse momento do enredo é dominado pelos conflitos decorrentes dessa situação. Bentinho se fará padre, contra a sua própria vontade e, mais ainda, contra o desejo mais profundo da mãe? Ou se unirá a Capitu, dona de seu coração mas, aos olhos da família, de origem talvez indigna de semelhante aliança? José Dias, um agregado cuja sobrevivência no seio da família depende da habilidade em combinar alguma opinião própria com discreta bajulação e obediência aos senhores da casa, terá nesse conflito um papel de “servidor de dois patrões”, típico de sua inserção familiar. Para agradar Dona Glória e para mostrar-se igualmente virtuoso, além de amigo fiel, não pode deixá-la esquecer-se da promessa; portanto, deve alertá-la para o perigo que Capitu começa a representar. Mas, para não contrariar Bentinho, que logo revela-se avesso à carreira religiosa, não pode opor-se frontalmente a um possível casamento do futuro chefe da família, de cujos favores poderá depender sua situação de agregado.
Num complicado entrecruzamento de interesses e conveniências, em que o narrador descreve uma Capitu bastante segura e desenvolta em seus projetos matrimoniais, as soluções de compromisso se criam oportunamente, com a conivência e mesmo a colaboração dos dois enamorados. Exigindo paciência e engenho, as estratégias indiretas se sucedem, ao longo dos anos: Bentinho vai para o seminário, mas não se ordena; em seu lugar, D. Glória dá ao sacerdócio um menino pobre, cuja formação financia; e enquanto cursa o seminário, Bentinho conhece Escobar, de quem se torna grande amigo e que termina por auxiliá-lo numa correspondência quase clandestina com Capitu. Livre da carreira sacerdotal, Bentinho forma-se advogado em São Paulo, retornando doutor para a Corte e... para Capitu.
O segundo — e breve — momento dessa narrativa começa com um anúncio de sucesso: “Tu serás feliz, Bentinho!”, é o que uma fada parece dizer. E essa voz soa como um prêmio ao engenho e à arte dos protagonistas. Mas a descrição do casamento que se segue, apesar dos coros de anjos e dos juramentos trocados, já traz algumas notas dissonantes, como o distanciamento e a amargura com que tudo é evocado, como se o narrador nos anunciasse uma tragédia.
Finalmente, no terceiro momento da narrativa, Bentinho e Capitu estão casados, e sua felicidade parece completa, com o nascimento, anos depois, do muito esperado Ezequiel. Como se não bastasse, Escobar, o amigo querido, está casado com Sancha, amiga de infância de Capitu; e a amizade entre os dois casais parece não ter fim.
Entretanto, Bentinho sente Capitu, cada vez mais, tal como José Dias certa vez a definira: “oblíqua e dissimulada”, com a cabeça e o coração voltados para outro lugar. Ora parece vaidosa e frívola, ora se revela pouco atenta às narrativas do marido, ora mostra-se às voltas com projetos secretos, compartilhados, entretanto, com Escobar. E então, um ciúme difuso e corrosivo toma conta do ex-seminarista.
Quando o filho do casal começa a crescer, sua mania de imitar os outros passa a irritar Bentinho e Capitu, especialmente quando o imitado é Escobar. A imitação é incomodamente perfeita; e os traços do menino, assim como algo de seu temperamento e de seu jeito de andar, aparecem a Bentinho como perigosamente semelhantes aos do amigo. Bentinho então evoca certas cenas de um enigmático alheamento de Capitu, de presenças inesperadas do amigo em sua casa, de frases agora suspeitas de José Dias, de aparentes aborrecimentos de Dona Glória em relação a Capitu. E então, todas essas imagens se unem para dar corpo a suspeitas dilacerantes. Mas a “certeza” da traição só lhe vem num lance inesperado do destino, quando o amigo, nadador exímio, morre afogado ao tentar desafiar o mar revolto, pela manhã. Na hora extrema em que o corpo é velado, Capitu, nos conta Bentinho, olha o morto com “olhos de ressaca”, “como se quisesse tragar também o nadador da manhã”. E esse olhar, o mesmo que arrastara o próprio Bentinho, será para sempre tomado como a prova — ou a confissão — da culpa, da odiosa traição.
Daí para o fim, o romance é uma sucessão de demissões, mágoas e ressentimentos. A vida em família, e a presença do filho antes tão amado, tornam-se insuportáveis para Bentinho, que vê em todos os gestos de Capitu uma silenciosa confissão de culpa. Num momento de grande exasperação, Bentinho acusa Capitu, que reage indignada, ferida, mas, ao fim e ao cabo..., resignada. E mais uma vez um jogo surdo de interesses e conveniências estabelece o destino final dos protagonistas. Para salvar as aparências, a família viaja para a Suíça, onde Bentinho deixa Capitu e o filho. Não tornará a ver a esposa, que morre exilada; e o filho, que revê a contragosto e cheio de ressentimento, a ponto de desejar-lhe a lepra, acaba morto de febre tifóide, numa viagem à Palestina.
Assim contada a história, Capitu parece mesmo adúltera. Mas há lugar para dúvidas, e muitas. Afinal, em “Dom Casmurro” só se ouve uma única voz, a de Bentinho, que nos dá a sua versão dos fatos, e além disso, muitos anos depois de tudo acontecido.
“Dom Casmurro” é um romance elegantemente trágico. Contido, não é dado a desesperos, nem a demonstrações de sofrimento. Antes pelo contrário: tudo é narrado com algum distanciamento, com belas metáforas, com uma surpreendente — e enganosa — precisão. Se assim quisermos, podemos acreditar em Bentinho; mas ele mesmo, por tudo o que sua narrativa é, nos permite desconfiar, imaginar outras narrativas para essa mesma história. O que nos diria Capitu? Como a silenciosa e discreta Sancha, mulher de Escobar, viveu esse drama? E afinal, onde estava o drama? Num adultério? Numa cruel suposição? No dilaceramento destrutivo de ciúme delirante?
Assim, nada parece mais incerto e fugidio que essa história aparentemente inequívoca, da qual nenhum leitor sai incólume. Quando tudo indicava que os obstáculos à felicidade dos enamorados estavam definitivamente vencidos, eis que o destino decide embaralhar o jogo. E num único lance, os cenários já são de desolação, desencanto e dor, fazendo ecoar a grande interrogação Por quê? Por quê?
E então, nosso desejo de entender o absurdo desse cúmulo torna-se presa fácil das artes — talvez artimanhas — de Bentinho. Ao nos falar tão saudoso e dolorido da amada, ao nos fazer uma refinada crônica de uma traição anunciada, faz, com a sua narrativa, o que denunciava no olhar de Capitu: suspende nossa razão, e nos arrasta em tormentosa ressaca.
Outras obras do autor:
A Cartomante - O conto sem final feliz foi publicado por Machado de Assis em 1896 em Várias Histórias. O livro é representativo da segunda fase do escritor, que abandonou o Romantismo para inaugurar o Realismo.
Texto original: Egon de Oliveira Rangel Revisão: Equipe EducaRede