Textos e Artigos

Por uma cultura de colaboração

Jaciara de Sá Carvalho

 

 


Pierre Lévy entre Sérgio Mindlin (à direita), presidente da Fundação Telefônica, e Rogério Amato, secretário estadual de Assistência e Desenvolvimento Social de SP 
Fotos: José Alves

O principal filósofo da cultura virtual contemporânea, Pierre Lévy, esteve em São Paulo, no último dia 18 de agosto, e participou de um encontro-laboratório com representantes dos Portais EducaRede e Rede Social São Paulo. Sob o tema "Inteligência Coletiva, Interdependência e Projetos Sociais", Lévy respondeu à questões formuladas pelos participantes. De modo geral, elas trataram da importância da colaboração on-line.

 

Um dos principais desafios da Educação hoje, para Pierre Lévy, não é superar a dificuldade de trabalhar no virtual, mas a de desenvolver uma cultura de colaboração na escola. Aí, tanto faz “estar no presencial ou no virtual”.

“As escolas devem ajudar as pessoas a avaliar e reconhecer o conhecimento que está nos outros. Talvez a escola deva ser o lugar onde se aprende a gerir conhecimento e a produzi-lo coletivamente”, acredita Lévy, também professor da Universidade de Ottawa e diretor do Research Chair of Collective Intelligence, ambos no Canadá. “A tarefa do educador vai se tornar cada vez mais complexa: como ajudar o aluno a arquitetar o conhecimento?”

Mas o filósofo sabe que o processo é lento: “Não podemos impor uma nova cultura. Ela precisa crescer naturalmente. É um processo demorado... Esse trabalho do EducaRede já tratávamos há quinze anos”. Mas ainda hoje o ensino brasileiro, por vários motivos, não incorporou a rede mundial de computadores em suas atividades. Por isso, o Programa EducaRede incentiva, em vários países, o uso pedagógico da Internet por meio de diversas ações. Atualmente, no Brasil, o Programa desenvolve projetos por meio de Comunidades Virtuais de Aprendizagem, em parcerias com secretarias estaduais e municipais de Educação.


Pierre Lévy é o principal filósofo da cultura virtual contemporânea 

As declarações de Pierre Lévy confirmam o trabalho desenvolvido pelo EducaRede em torno das Comunidades Virtuais, “um fenômeno vivo”, que precisa de "líderes sociais", que cresce com o tempo e cuja “essência são os objetivos comuns”. “Não há comunidade sem identidade e esta sem memória coletiva. Cada membro de uma comunidade cultiva o que é comum a todos”, diz o filósofo, que completa “quanto mais as pessoas dão, melhor é o que se retira de volta”.

Lévy explica que “as Comunidades Virtuais são feitas pelas pessoas”, mas, nem por isso, pode-se dispensar a presença do mediador naquelas cujo objetivo é o desenvolvimento de aprendizagens. “Não acredito que haja uma pura espontaneidade em aprendizagens escolares. Ela precisa ser organizada. As únicas redes que funcionam sem mediador são as de entretenimento”.

Para as redes sociais, o desafio seria administrar o conhecimento visando “ajudar as pessoas que pertencem à mesma comunidade a encontrarem a informação que precisam no momento em que a ação exige essa informação, ou ajudar a encontrar as pessoas que têm essa informação. Colocar o conhecimento num formato que possa ser usado por outros, de forma pública”, defende o filósofo. Mas tendo-se o cuidado de não disponibilizar informações que já existem. “Obviamente todas as instituições que têm os mesmos objetivos têm que colaborar entre si ou só teremos redundância nas informações. Não estamos mais numa época de bibliotecas, quando você precisava ter os mesmos livros em várias bibliotecas (físicas)”.


Todos que participaram do encontro puderam fazer perguntas ao filósofo
A Wikipédia é o exemplo mais conhecido de colaboração on-line. Apenas quinze pessoas, segundo Lévy, são pagas para manter um site com “mais informações do que qualquer enciclopédia impressa, além de ser preciso, gratuito, e atualizado. Se você ler o manual dos participantes, verá que ele é muito preciso e as informações são validadas”. Para o filósofo, a criação de regras é uma forma de garantir a qualidade das publicações. “A maneira de integrar as múltiplas colaborações se dá por meio de regras. No mundo da Wikipédia, se você escrever é porque você é um especialista naquele assunto. Há um gosto, uma apreciação das capacidades intelectuais dos outros, não só anarquia. É preciso haver equilíbrio entre autonomia, espontaneidade e disciplina”.

Autor de conceitos como “Inteligência Coletiva”, “Tecnodemocracia” e “Metaevolução”, Pierre Lévy divide a humanidade em antes e depois do advento da Internet e afirma que essa nova sociedade usará o aprendizado cooperativo e a Inteligência Coletiva como formas de organização. O filósofo tem atuado em diversos países, junto a governos, empresas e instituições prestando consultoria no campo da Inteligência Coletiva e cibertura, com larga experiência a respeito das mais diversas iniciativas de trabalho cooperativo, através das redes virtuais. Atualmente, ele trabalha no desenvolvimento de uma linguagem que possa ser reconhecida por qualquer computador, ultrapassando, assim a barreira das línguas naturais – a Web Semântica.

A iniciativa do encontro foi do Laboratório de Inteligência Coletiva (Linc) e da Fundação Vanzolini, com apoio do Banco Real ABN Amro, da Fundação Telefônica e do Instituto Migliori.

 

 

 

Mais

>> Leia a transcrição da conversa

 

 

22/11/2007

 

Textos e Artigos
Uso pedagógico do blog – o Edublog
Seminário discute TIC na Educação
Web Currículo: integração das TICs ao currículo
 
Outros assuntos
Participe do Fórum Internet na Escola
Veja no Turbine sua aula dicas de uso da informática por disciplina