Memória > O trabalho com memória na escola

 
 
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Para Entender
 





A memória e as épocas


Deusa Mnemosine

Desde a Antigüidade, os homens procuram compreender a memória. O que é, como funciona. Este vem sendo tema dos estudos das mais diversas áreas do conhecimento. As maneiras de explicá-la se aproximam aos conhecimentos e às experiências de cada sociedade. Hoje, por exemplo, muitos utilizam a metáfora do computador para explicar como a nossa memória funciona: uma máquina capaz de armazenar uma enorme quantidade de informações e resgatá-las quando necessário. Seria assim mesmo? Será que tudo o que vivemos está guardado e acessível por um clique, todas as vivências tomando o mesmo espaço? Com a mesma importância?


Griot (na cultura africana, ele é o responsável por manter viva a memória de seu grupo por meio das canções e das histórias que conta e canta)
Para os antigos gregos, a memória era sobrenatural. Um dom a ser exercitado. A deusa Mnemosine (origem da palavra memória), mãe das Musas, protetora das Artes e da História, possibilitava aos poetas lembrar do passado e transmiti-lo aos mortais. A memória e a imaginação têm para os gregos a mesma origem: lembrar e inventar guardam ligações profundas. O registro escrito era visto como algo que contribuía para o enfraquecimento da memória, ao transferi-la para fora do corpo. Não por acaso, os gregos desenvolveram muitas técnicas para preservar a lembrança sem lançar mão do registro e ainda reservaram ao poeta um papel social fundamental. Cabe a ele resgatar do esquecimento o que é importante e transmitir por meio do canto e da poesia, sob proteção das musas, as histórias ancestrais que não podem ser esquecidas. É  uma espécie de memória viva do seu grupo. A memória está no relato, no canto.

É também sobre a memória dos ancestrais que grandes religiões como o Cristianismo e o Judaísmo se estruturaram. Ambas pautam o presente pela rememoração dos acontecimentos e milagres do passado. O tempo é marcado por comemorações litúrgicas, louvam-se santos ou mártires, milagres são lembrados em datas precisas. Ainda que a expansão das crenças monoteístas tenha sido possível pelo fato de elas se basearem em textos escritos (a Bíblia, para judeus e cristãos; o Alcorão, para os muçulmanos), foi por meio do relato oral das passagens registradas nos textos que estas religiões ganharam o mundo, que poucos sabiam ler.

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:: Memória e narrativa


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Tradição oral na
literatura africana

A experiência vivida pelos indivíduos e pelos grupos constitui a sua memória. Por meio da narrativa oral, a memória pôde ser compartilhada e transmitida de geração em geração. As narrativas possibilitam que a experiência, os valores e visões de um grupo, os saberes construídos ao longo do tempo se transformem em patrimônio comum. Sociedades que não dispunham de registro escrito mantiveram a sua cultura viva por meio das narrativas orais. Durante séculos, o necessário para a vida em comunidade veio sendo transmitido oralmente. Nessas sociedades, o narrador, que conta as histórias do próprio grupo ou as passagens trazidas de longe, tem um papel fundamental, por guardar e compartilhar a memória que garante ao grupo as suas características, visões de mundo e peculiaridades.

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:: A memória e o registro


Impressão com a prensa de tipos móveis, criada por Gutemberg
A invenção da imprensa  e a urbanização, com alterações fundamentais na organização e nas relações sociais, trouxeram mudanças importantes para a memória dos indivíduos e dos grupos. Em uma sociedade baseada na transmissão oral dos saberes necessários ao trabalho e à vida em grupo, novas ocupações relacionadas ao comércio e à vida nas cidades passam a demandar registros de operações, de listas, de transações. Por isso se desenvolvem meios cada vez mais sofisticados para guardar e disseminar a memória em textos e imagens. O importante é registrar todo o conhecimento numa Enciclopédia, e reunir todos os livros numa grande biblioteca.

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:: Memória, o que é?

O conceito, e sobretudo o funcionamento da memória dos indivíduos, ganhou importantes aportes das ciências físicas e biológicas no século XX. Os estudos envolvem necessariamente os conceitos de retenção, esquecimento e seleção, elementos fundamentais da memória. A retenção talvez seja o mais óbvio: preservamos uma parte das nossas vivências e experiências. Por motivos variadíssimos que podem se relacionar à emoção, ao contexto do vivido, entre outros, parte do que vivemos é preservado ou esquecido. A memória é, portanto, seletiva. Os mais diversos mecanismos entram em jogo neste processo. O afeto, a importância de uma experiência para si e para o grupo, a relação entre diferentes experiências. A memória não é, portanto, uma simples gravação de tudo o que vivemos, mas uma seleção das experiências

Não nos é possível guardar todas as experiências e, caso o fosse, pouco nos serviria tudo preservar. Viveríamos como Funes, o personagem de Jorge Luís Borges,  que nada esquecia. Cada momento, cada detalhe, tudo fora preservado em sua memória. Porém, como afirma o autor “suspeito que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No abarrotado mundo de Funes não havia senão pormenores, quase imediatos”. A memória se constrói também pelo esquecimento.

"Considere aquilo que você sabe a respeito do mundo, dos outros e de você mesmo: toda essa informação foi adquirida através da experiência e está armazenada em suas memórias. Somos seres com história, construímos nossa identidade através de um processo que mescla as experiências vividas no ambiente e as nossas vivências interiores; assim, somos quem somos porque aprendemos e lembramos." (DALMAZ e NETTO)

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:: Eu lembro, Nós lembramos

Dentre os vários estudos sobre a memória, os de Maurice Halbwachs  contribuíram muito para a compreensão da memória e suas relações com o contexto social. Para ele, o lembrar se dá sempre no social. Mesmo a memória aparentemente mais particular, a nossa experiência vivida, está ligada à memória de um grupo. Cada um de nós carrega as suas lembranças, mas não estamos sós neste lembrar; ao contrário, estamos o tempo todo interagindo com a sociedade, seus grupos e instituições. A nossa memória está impregnada das memórias dos que nos cercam. Não é preciso que eles estejam presentes, a nossa memória e as maneiras como percebemos o mundo se constituem a partir desse emaranhado de experiências, tão diversas quanto os diferentes grupos com que nos relacionamos.

Sentimos como se a nossa memória fosse só nossa, uma unidade, embora nossas lembranças se alimentem das diversas memórias oferecidas pelo grupo, a que o autor denomina “comunidade afetiva”. Dificilmente nos lembramos fora deste quadro de referências. Tanto nos processos de produção da memória como na rememoração, o outro tem papel fundamental.

Esta memória coletiva tem a importante função de contribuir para o sentimento de pertinência a um grupo de passado comum, que compartilha memórias. Sentimo-nos parte do grupo quando compartilhamos de suas lembranças. A identidade se constitui nesta memória compartilhada.

Poderíamos imaginar que, por se alimentar do passado, a memória seja estática. Porém, ela se modifica ao longo do tempo e se rearticula conforme a situação, as relações que se estabelecem. A memória é história viva e vivida, e permanece no tempo renovando-se. Para lembrar e para esquecer também estão em jogo elementos inconscientes como o afeto, a censura, entre outros. A memória não é uma simples gravação. Relaciona-se às emoções, às outras experiências vividas, aos valores e experiências dos grupos. Lembrar também se relaciona com o coletivo. Dificilmente lembranças emergem fora das relações com os grupos e o interesse pela experiência do outro.

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:: Memória é História?

Memória é o mesmo que História? Seria a História uma porção de memórias reunidas? Essa questão vem sendo também objeto de muitos estudos. É certo que memória e História têm como foco o passado, porém este passado é a matéria-prima comum para processos que, para muitos autores, não se confundem. Isso porque a memória é um processo vivo, vivido física e afetivamente pelos grupos, e permanece na medida em que se renova, é transmitida e compartilhada. Não há memória sem as pessoas que a mantêm como sentimento e como prática. Ela não é fixa, as memórias se rearranjam, se organizam e se articulam a novas experiências; a é sempre presente. Já a História diz respeito a um tempo passado mais amplo, que se cristaliza no registro escrito e que se distancia dos que a viveram. A História é uma reconstituição, uma representação do passado, produzida a partir do distanciamento, da análise intelectual do discurso crítico.

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:: Memória, onde está?

A memória está nos nossos corpos, nas lembranças que carregamos conosco e também está nos objetos, nas fotos, nos registros escritos. As memórias dos grupos se referenciam, também, nos espaços em que habitam e nas relações que constroem com esses espaços.

Ao longo dos séculos, a humanidade vem reunindo em coleções de objetos e registros e criando espaços específicos para armazenar os traços e vestígios do passado, a memória social, testemunhos da experiência e da vivência dos grupos. Em espaços privados, ao lado dos templos, ou em monumentos e arcos, bibliotecas e arquivos, os vestígios do passado chegam ao presente. A partir do século XVIII, estas instituições se organizam e muitas se tornam públicas, dando origem a diferentes instituições de memória como os museus (a casa das musas), pinacotecas, arquivos públicos, bibliotecas que hoje conhecemos e freqüentamos, com objetivos educativos, culturais, de lazer e entretenimento. O século XX viu a multiplicação destas instituições de memória. Museus de História, de Ciências, museus da Guerra, museus da Imigração. Cidades abandonadas pelo declínio econômico de certas atividades (metalurgia, por exemplo) são convertidas, inteiras, em museus. Cada vez mais cenográficas, muitas dessas instituições não resumem seus objetivos a trazer dados do passado, mas pretendem recriar o passado, reviver a memória, as antigas tradições, reconstruir identidades. A transmissão fria de informações dá lugar à sensibilização dos visitantes.

Esta multiplicação de espaços e atividades destinadas a preservar a memória ocorre justamente num tempo em que vivemos, como nunca,  a sensação de enorme velocidade e de perda iminente das memórias e referências do nosso passado.

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:: Memória e tecnologias


Foto HD

Nunca tivemos ao alcance da mão tantos meios para registrar e preservar a memória. O computador e as novas tecnologias elevaram esta possibilidade ao infinito. Abriram, de fato, uma nova era. É possível registrar em texto, som e imagem tudo o que acontece às pessoas e aos grupos, a sua produção,  e transformar em dados a serem armazenados e consultados a qualquer momento. Expandimos ao infinito a possibilidade de tudo arquivar.

Museus, bibliotecas e arquivos são criados numa velocidade nunca vista, muitos já nascem como museus virtuais, vivemos uma febre de memórias. Das lembranças pessoais (antes guardadas em diários, mantidos em segredo) que hoje estão nos blogs, públicos e articulados numa grande rede de memórias, às informações institucionais de grandes corporações, rigorosamente tudo é passível de ser arquivado e preservado. Podemos guardar grandes quantidades de informações e transformar em arquivos digitais toda a informação produzida anteriormente pela humanidade durante milênios.

As novas tecnologias possibilitam a todos preservar as suas memórias, processo que, por séculos, esteve restrito a poucas pessoas e grupos com poder e meios para registrar a sua história em livros, retratos, monumentos. Fotografar, registrar, contar histórias, criar sites, enfim as tecnologias abrem possibilidades inéditas para que grupos, antes impedidos de ter a sua experiência preservada e compartilhada, conquistem esta possibilidade.

As mesmas tecnologias que possibilitam tudo preservar estão relacionadas à aceleração do tempo e à sensação de que estamos em vias de tudo perder e esquecer, pela quantidade de informações a que estamos expostos. Certamente as tecnologias modificam os modos de produzir, viver e compartilhar memórias.

“Numa sociedade em que as alterações ocorrem com extrema velocidade, grande parte da informação estruturalmente nova para o sujeito se perde, esquecida e apagada da memória humana, pela impossibilidade de criar vínculos suficientemente sólidos.” KENSKI


Se as memórias e as narrativas orais não são mais o meio privilegiado de compartilhar a experiência vivida e os saberes acumulados pelos grupos, qual um tesouro guardado por gerações, certamente cabe compreendê-las nos novos contextos, encontrar meios de compartilhá-las e mantê-las vivas, presencial ou virtualmente, uma vez que a possibilidade de se compreender como parte de um grupo, de construir conceitos de pertinência e identidade ainda são processos fundamentais para o ser humano e que dizem respeito à memória.

Obs.: Os sites foram visitados em 18/5/2007.

Texto original: Zilda Kessel
Edição: Equipe EducaRede

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